Programadores na era da IA: profissão em risco ou reinvenção total?

A inteligência artificial está a transformar o mercado de trabalho, colocando novas questões sobre o futuro de várias profissões. Entre elas, destaca-se a de programador, tradicionalmente vista como uma das mais estáveis no setor tecnológico. Com o avanço de ferramentas de geração automática de código, importa perceber: estamos perante uma redefinição do papel destes profissionais ou um possível risco para a profissão?

Miguel Mira da Silva, professor catedrático do Instituto Superior Técnico e coordenador científico dos programas na área de Inteligência Artificial no Técnico+, tem acompanhado de perto esta transformação. Não tem dúvidas de que a mudança é real. Reconhece que a IA poderá substituir alguns programadores, em particular, nas tarefas mais rotineiras e na escrita de código simples. No entanto, rejeita leituras mais alarmistas: a ideia de que deixará de ser necessário programar não corresponde à realidade.

Para o professor, o que está verdadeiramente em causa não é o desaparecimento da profissão, mas uma transformação profunda do seu papel. Programar sempre foi muito mais do que escrever linhas de código. Implica compreender estruturas, definir requisitos, garantir qualidade e testar soluções. “Esses conhecimentos são transversais”, sublinha, e continuam a ser indispensáveis independentemente das ferramentas utilizadas. “A IA é mais uma ferramenta”, esclarece, e é precisamente quem domina as bases estruturais do desenvolvimento de software que estará em melhor posição para tirar partido dela.

Apesar disso, persiste um desafio relevante. Muitos profissionais ainda não dominam plenamente estas tecnologias, não por falta de acesso, mas por dificuldade em integrá-las de forma consistente nos seus processos de trabalho. A questão deixa de ser apenas técnica e passa a ser estratégica: saber quando, como e com que finalidade utilizar a IA.

Esta lacuna traduz-se, muitas vezes, em limitações concretas na produtividade e na capacidade de resposta das organizações. O baixo nível de literacia digital da população activa traduz-se numa incapacidade generalizada de integrar a IA nos fluxos de trabalho reais das organizações, limitando directamente a produtividade e a competitividade dos profissionais.

Neste contexto, o sistema de ensino enfrenta a necessidade de adaptação. No entanto, a evolução tecnológica não espera por ciclos curriculares. Como refere o Professor Miguel Mira da Silva, a responsabilidade pela atualização é, em parte, individual. Profissionais e estudantes que pretendem manter-se relevantes terão de assumir um papel ativo na aquisição destas competências, antecipando mudanças em vez de reagir a elas.

Esta perspectiva é especialmente relevante para quem está a iniciar ou a consolidar a sua carreira na área tecnológica. Num contexto em que as ferramentas evoluem mais rapidamente do que os planos académicos, a capacidade de integrar a IA no mercado de trabalho torna-se uma competência diferenciadora. Não se trata de substituir o conhecimento técnico de base, mas de o ampliar com novas formas de pensar e de agir sobre os problemas.

É neste enquadramento que a oferta formativa do Técnico+ tem vindo a assumir um papel relevante, ao capacitar profissionais para integrar estas tecnologias de forma prática e aplicada. Programas nas áreas de Inteligência Artificial Generativa, AI Agents e desenvolvimento assistido por IA têm contribuído para a requalificação e evolução de carreiras, preparando os profissionais para acompanhar a mudança e integrá-la nos seus contextos profissionais.

Fontes: Miguel Mira da Silva, “A Inteligência Artificial vai obrigar a uma requalificação profissional massiva” (artigo de opinião, 2025); “O futuro dos programadores na era da IA: profissão em risco ou reinvenção total?”, ECO, Março de 2026.

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