Cibersegurança: do risco à oportunidade

Há quem pense que a cibersegurança diz respeito à proteção integral de sistemas tecnológicos e organizações face a ataques realizados por via informática e pela Internet. No entanto, é fácil compreender que essa proteção integral é tão realista quanto a possibilidade de reduzir a zero o crime numa grande cidade: não é realista.

Assim sendo, a cibersegurança tem que ver com gestão de risco. O objetivo da cibersegurança não é reduzir o risco a zero, mas mantê-lo num nível suficientemente baixo. O risco depende de três fatores: nível de ameaça, nível de vulnerabilidade e impacto de um ataque bem-sucedido. Às organizações cabe sobretudo atuar na redução do seu nível de vulnerabilidade, de modo a reduzirem o risco ao tal nível suficientemente baixo.

Quanto mais não fosse, as notícias que aparecem na comunicação social bastariam para mostrar que esse simples objetivo de manter baixo o nível de vulnerabilidade é tudo menos simples. O ponto deste artigo é: não será que um nível baixo de vulnerabilidade – a cibersegurança – não será também uma oportunidade?

A Distributed Ledger Technology (DLT), muitas vezes designada tecnologia Blockchain, mostra isso mesmo: que uma infraestrutura altamente segura é uma oportunidade para a criação de novas aplicações informáticas que podem transformar o mundo. A primeira Blockchain era uma componente do sistema informático que implementava uma criptomoeda chamada Bitcoin. O uso dessa infraestrutura altamente segura permitiu que essa criptomoeda hoje esteja valorizada em 500 mil milhões de euros. Ou seja, um mero conjunto de computadores interligados forma a fornecerem uma aplicação altamente segura consegue valer uma fortuna.

A DLT, incluindo a Blockchain da Bitcoin, consegue um nível muito elevado de cibersegurança (ou um nível de vulnerabilidade muito baixo) usando uma solução técnica designada replicação. Apesar de os detalhes serem complicados, a ideia é simples: todos os dados de transações (transferências de valor) estão copiados num número elevado de computadores (milhares de computadores, no caso da Bitcoin). Assim, é possível confiar nessa informação sem confiar nos, ou sequer conhecer os, donos desses computadores. Não se pode confiar em cada um, mas pode- -se confiar no sistema como um todo. Confia-se ao nível de 500 mil milhões de euros.

A Bitcoin foi apenas o princípio. Estas infraestruturas são agora a base de uma nova visão designada Web 3. As aplicações serão já não criptomoedas, mas várias aplicações de finanças distribuídas, de gestão de identidade de pessoas e organizações, de documento certificados, de venda de bens móveis e imóveis, etc.

Assim, a cibersegurança deixa de ser apenas a solução para um risco, passando a ser uma oportunidade para a criação de uma nova economia e de um novo ecossistema que permitirá facilitar a nossa vida de cidadãos e das organizações.

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